Eu me perdoo porque em vários momentos, fui injusta com vocês, comigo. Deixei que as minhas expectativas se tornassem exigências e julguei pessoas inteiras por causa de uma única atitude. Eu me perdoo porque na tentativa diária de acertar, cometi inúmeros erros por medo de errar. Fui áspera quando estava assustada e precisava pedir abraço, ajuda. Fui dócil por interesse, por necessidade de ser aceita para minha falsa completude. Eu me perdoo porque, não estando inteira para mim, doei fragmentos do que eu tinha, fui cínica com a minha poesia, falei de amor quando o que eu sentia era carência. Eu me perdoo por tantas vezes, não perdoar tua displicência, invadir tua individualidade, reclamar tua ausência. Eu me perdoo pela falta de compreensão e paciência com as minhas limitações e com as suas. Eu me perdoo por tirar a roupa quando você queria me sentir emocionalmente mais explícita, não apenas me ver nua. Eu me perdoo por ter me anestesiado tanto tempo e desrespeitado minha angústia, negligenciado qualquer aprendizado que trouxesse sofrimento. Eu me perdoo por rasurar com minhas autocríticas, os meus melhores momentos. Eu me perdoo porque sou imperfeita e humana, mas já pretendi a perfeição do Outro, mesmo não havendo importância ou a possibilidade disto. Por querer receber aquilo que nem eu tinha para dar. Por insultar querendo que a mudança fosse alheia porque julgava ser do Outro o medo de transcender, de transmutar.
Eu me perdoo por ter vivido por tantos anos sem me perdoar.
Marla de Queiroz

Passei muito tempo tentando “suprir meus vazios” até descobrir que o que apertava o meu peito era a quantidade de entulhos emocionais que eu carregava. Eu precisava era do vazio para me sentir internamente arejada e com bastante espaço para crescer. A angústia não é um vazio, é uma corrente que se arrasta. O vazio é uma possibilidade, uma lacuna a ser preenchida, um espaço para uma decoração nova. Precisamos de páginas em branco para que nasçam poemas, de recipientes disponíveis, de um coração espaçoso, de uma alma livre, de uma mente aberta. O vazio só existe para os desapegados, para os que suportam e celebram o silêncio que possibilita-nos ouvir os sussurros da intuição e não os gritos infantis dos desejos imediatos. O vazio é uma esperança maciça. Ele não é apenas a falta que nos move e motiva, mas a lembrança mais genuína de que somos seres inacabados e que precisamos nos construir diariamente, incansável e eternamente. O vazio não é um abandono de si, é um reconhecimento do eu, um convite para o Outro, algo que deve ser preenchido temporariamente, dentro do mesmo movimento humano de acordar sempre um desconhecido. O vazio é uma curiosidade que ainda não foi desvendada. É ter braços livres para o abraço que acabará daqui a pouco, mas que ecoará constantemente na lembrança mais bonita. Porque no toque intenso, o afeto estava leve.

Marla de Queiroz


Quando perco o sono fico costurando flores por dentro dos sonhos , no viés do vestido da noite.Às vezes me dá uma vontade crua de ser triste só pra encharcar com lágrimas de sal a poesia e espantar as abelhas.Mas não aprendi amargura nem quando me amamentaram com fel.Eu só preciso pingar duas gotas de lua nos meus olhos pra dilatar a pupila e resgatar minha inocência e aceitar com ternura minha vida de insônias, ardências e alguns (des)encontros.
Estou com sede de mudanças, mas não quero arrastar os móveis, nem desentortar os quadros.Quero desabitar meus hábitos; entrar na poeira estagnada das coisas e assoprá-la no vento como quando se liberta um passarinho depois de curar sua asa machucada.
Pra estar feliz eu só preciso deixar que meus dedos dancem a coreografia do poema novo,vestir as palavras de cetim pra seduzir o moço e aumentar as exclamações do seu desejo.
Amanhecer é da competência dos dias.
O poeta tece a paisagem.

(Marla de Queiroz)
Terça-feira de Lua Cheia de 1999.
"FULANO",
Tenho escrito a você mentalmente todos os dias. Hoje me ocorreu enviar algo.
É que gostaria que soubesse que só tenho lembranças boas do nosso início de história, mas precisei me afastar para não “forçar a barra”. Sei que dentro das suas limitações você abraçou um lado meu que achava bonito, mas rejeitou um outro também repleto de belezas e sombras e, de qualquer maneira, eu nunca soube lidar com a rejeição: fico com cara de choro e peço colo fora de hora (inadequadamente), o que pode ser chatíssimo para quem, no momento, está sem condições de se doar e precisa cuidar somente de si. Não há julgamento no que te escrevo, mas uma forma de olhar como quem se olha no espelho...
É que tenho sempre tanta vontade e pressa de que tudo dê certo que, às vezes, ultrapasso a faixa que indica que já andei os meus 50% do caminho e fico querendo andar os 50% do Outro para que haja logo um ENCONTRO. E o nome disso tudo é MEDO. 
O meu medo foi tão grande quanto ao seu, mas alguém tinha que investir de alguma forma e eu me aventurei. Quis tanto você por perto que já nem me importava mais para quê. Me predispus a esperar “seu momento”mas me dei conta de que eu estava batalhando inutilmente e me agarrando com uma força quase insultuosa a um corpo completamente destituído do que eu realmente precisava. Adiei demais minhas entregas reais, bebi muito na Literatura e encontrei um refúgio, uma bolha de proteção de tudo que pudesse me doer depois. E os meus referenciais de relacionamentos nunca foram positivos, por isso tantas fugas criando personagens, inventando histórias e abandonando capítulos inteiros pela metade.
De repente me veio uma vontade louca de investir verdadeiramente em alguém e não sei exatamente o porquê, embora você me dê inúmeros motivos para isto, te escolhi como meu foco. Mas você não estava na mesma disposição para o abraço e me deparei com mais uma fuga minha: atrair alguém não disponível afetivamente para que eu desistisse do meu entusiasmo inicial e, mais uma vez, abandonasse o primeiro capítulo pela metade.
Não sei ainda aonde quero chegar, só acho justo te contar essas coisas.
Sinto saudades das nossas trocas e da nossa relação literal/mente, mas se eu continuasse com isso ficaria cada vez mais confuso e difícil para mim reorganizar você dentro dos meus sentimentos. Decidi o que quero e preciso vibrar nesta energia para atrair a história INTEIRA e INTENSA com POESIA e PRESENÇA. Do jeito em que estávamos só conseguiria me nutrir de esperança infantil dessas que nos vão cegando e deixam tolos e desinteressantes para o Outro.
Enfim, sigo daqui sonhando em publicar meus livros, meus textos. Sigo com minhas angústias, alegrias, saudades. Concentrada nas coisas que quero de imediato e desejando com todos os detalhes. Ainda não tem um rosto, quase teve o seu, mas desejar um rosto é interferir no destino alheio e isso eu não faço.
Ficarei bem, fique bem. Teremos sorte. Ainda nos encontraremos “por acaso”(!) para falar de amor, amizade e sobre a ANATOMIA DA POESIA...
Teus poemas estão guardados num escaninho precioso da minha memória. Teu cheiro, tua voz e um jeito muito seu de não “se dobrar”também!
É com um nozinho na garganta , mas com a voz mansa e o coração sossegado que eu me despeço: Até quem sabe!

Marla de Queiroz

E no meio da noite, acordei com uma saudade da sua mão segurando a minha. Saudade da nossa conchinha. 
Será que você tem saudade desses momentos?  

E eu, que fiz silêncio até aqui, agora ardo. É porque tem coisas que, quando guardadas, nos guardam também. Guardam nossa vibração pela vida, nossa intensidade plena, nossas alegrias exaustivas. E quando deixo o silêncio ser maior, tantas vezes é por falta de reação, uma apatia e cansaço diante do mesmo diálogo que nos levam as mesmas respostas. E essa ardência é sintoma de peito calado, é consequência de amor sufocado, é uma explosão que comunica a gota d'água e transborda as fés vencidas. E eu, que colecionei todas as feridas e as tapei como quem abafa o som de um megafone com a mão, sinto agora o eco no coração, vazio de sim, tão cheio de não.

Lilian vereza 
E cansa se frustrar todos os dias pelo mesmo motivo. 

Perdoe-me Senhor , pois todos os dias peço que seja feita a tua vontade, mas muitas vezes a contesto quando essa não coincide com a minha! Perdoe-me também , por não compreender e aceitar tudo que tem me doído nos últimos tempos. Me perdoei por questionar a sua presença...
Fortalece Senhor a minha fé! 

"(...) 
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós"

Paulo Leminski
Tenho sentido uma tristeza tão grande, as palavras se inquietam aqui dentro. E tudo que antes era acomodação, tornou-se um grande vendaval. As palavras que me saiam tão bem, agora falta. Vejo a pessoas pela rua transbordando felicidade  e questiono: Cadê a minha, onde perdi essa criatura? E sinto, essa tristeza cortante. Pede a Deus que me devolvesse você, mas hoje questiono, como Ele pode devolver o que nunca foi meu. E nunca será, sei lá... Eu estou cansada das suas promessas sem embasamento. Você fala, fala e fala, mas não vejo seus atos em busca da consolidação das palavras. Eu só queria aquela sensação de segurança. De cachecol envolvendo o pescoço, de mãos dadas na roda gigante. E de nossos momentos que ainda estão intactos em minha memória. 
Eu já nem sei se tudo que lembro é real, ou são memorias projetadas por uma menina boba e sonhadora. 
Talvez, eu nunca me sinta feliz realmente. Mas, desejo isso com toda força. 


"Há uma desproporção enorme entre a minha urgência e a lentidão de tudo."
Vergílio Ferreira

" Vi sempre o mundo independentemente de mim. 
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas, 
Mas isso era outro mundo. 
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja. 
Acima de tudo o mundo externo! 
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim."

Álvaro de Campos
" aqui desisto de você
esconderei seu nome
esquecerei seu endereço
apagarei as digitais da pele
o gosto do beijo na boca
não lembrarei nossos dias
suspenderei seus contatos
(...)
não conhecerá minhas novas cicatrizes
não amará ninguém mais inconstante,
não amará ninguém que te escreva -
(talvez sim, é possível,
mas não com tanta verdade.)
e de repente teremos nos esquecido,
teremos nos substituído em outro alguém,
saberemos, vez em quando,
feliz ter sido. Aqui-agora não decidimos,
não nos permitimos. Ousar, se quiséssemos.
Amar se fossemos precisos."

Cáh Morandi
"Por onde andas? Porque becos te escondes, que não te deixas ver??? O vento sussurra-me o teu nome e as saudades ... são mais que muitas! Eu sei ... eu sei, que não tenho o direito de dar voz aos gritos suplicantes da minha alma ... que te reclama! Mas como olvidar, se sou feita ... de ti?"
Inês Climaco
"De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?"

Freud

(...)


Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela espanca 

Sou filha da charneca erma e selvagem: 
Os giestais, por entre os rosmaninhos, 
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos, 
Desta minh'alma ardente são a imagem. 

E ansiosa desejo - ó vã miragem - 
Que tu e eu, em beijos e carinhos, 
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos, 
Fôssemos um pedaço da paisagem! 

E à noite, à hora doce da ansiedade 
Ouviria da boca do luar 
O De Profundis triste da saudade... 

E, à tua espera, enquanto o mundo dorme, 
Ficaria, olhos quietos, a cismar... 
Esfinge olhando a planície enorme...

Minha, Florbela. 
Garçom, por favor..., Uma dose de calmante para alma, ansiolítico para o coração e um pouco  de  antibiótico para tudo que tem consumido por dentro. Ah, e não esquece... de uma pilula  para esquecer definitivamente o que dói por dentro. Desde já grata!

:p

Triste ver a população em " semi-guerras virtuais" quando deveríamos mesmo é pensar que pais desejamos realmente viver . O gigante acordou, adormeceu, e agora está fazendo o quê? Sim, a Dilma ganhou a eleição. O Aécio continuará com seus posicionamentos políticos. O Lula continuará também por trás do governo. Mas, a pergunta que me inquieta é... O que iremos fazer do nosso querido BRASIL? Essa eleição só mostrou que vivemos em um pais, onde esquecemos das coisas muito rápido. Idolatramos o que não deveria ser incentivado. E ganhamos palmas, quando damos o "nosso jeitinho brasileiro". E por fim, acabaremos mais uma vez felizes com o nosso pão e circo particular! Acorda brasileiros, a mudança não está no politico A ou B, ela queridos, está em nós. Na mudança de olhar e perspetiva. Como queremos ter políticos éticos e comprometidos, se nos 'prostituímos' com qualquer coisa. Se damos o nosso "jeitinho" para tudo. E esse jeitinho estou falando das nossas pequenas tramoias,( como filar fila, fingir que está dormindo pra não dar o logar ao idoso, se fingir de louco pra adquirir aposentadoria do governo, fingir renda para ter direito ao bolsa família. e por ai vai...)
Ah, e por falar em jeitinho, cadê as brigas desses políticos? Amanhã mesmo eles estarão jantando em um rico restaurante, gastando o nosso dinheiro e rindo da nossa cara. E nós? Estaremos aqui, no mesmo lugar, brigando por besteira e chateados uns com os outros. Já Dilma, Aécio e cia... Eles estarão todos lá... amigos enquanto for conveniente...
 
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