(...) Quando estamos num turbilhão emocional, as imagens turvas pedem anestesias e a gente acha que obtém algum controle sobre as coisas pensando que podemos deixar pra cuidar da nossa vida amanhã. Mas à medida que protelamos nossa transformação, à medida que adiamos nossa mudança, adiamos também uma forma nova de sentir outras alegrias. E fechamos os olhos pra quem está ao lado, ou banalizamos um possível encontro que poderia desencadear uma história mais bonita. Ter a felicidade como um propósito, é a coisa mais difícil que conheço. Estamos sempre fugindo de nós mesmos e nos julgamos espertos demais com a porção de pequenas mentiras que nos inventamos. Mas a angústia que vem disso não nos deixa esquecer que só estamos adiando um processo precioso e delicado demais já que podemos continuar nos anestesiando. É preciso estar pronto, mas estar pronto também é transitório. E é preciso lucidez e coragem pra enfrentar o nosso pior inimigo: nós mesmos. Admitir que estamos nos fazendo mal com alguns hábitos ou relacionamentos destrutivos é assustador. E muitas vezes a sensação de impotência é o que impera. Somos imediatistas demais e não queremos sentir dor. Camuflamos nossa infelicidade da forma mais adequada que podemos e passamos boa parte da vida sendo quem não somos. Por isso sempre aquela sensação de que alguma coisa está fora do lugar...
Marla de Queiroz
Têm dias que o silêncio espeta por dentro.
E as emoções carcomidas pela falta de.
Fica um embrulho vazio na garganta, eu sei.
Uma bolha de angústia.
O corpo sem responder a qualquer resquício de otimismo.
Nenhuma palavra escorre pelos dedos,
mas a mente inquieta.
Silêncio.
Se tem dor dormida dentro,
brasa acesa não aquece.
Dormência fora, encontro de insônias.
Cansaço sem lugar pra encostar o corpo
por causa do vazio atrás e dentro.
Eu sei como é:
só se encontra amparo onde há-braços.

(livro: FLORES DE DENTRO)
Mais um dia, dádiva divina, início de tudo,cores vivíssimas, a água que sacia a boca, molha os lábios. Em algum lugar chove até transbordar sobrevivência ou deixar um buraco onde antes havia uma pessoa, uma família. Notícias de jornais são sempre tristes. Mas algumas delicadezas: uma árvore foi salva, uma roseira deu botão, as violetas estão calmas, alguém acordou com uma atitude pronta para mudar toda sua vida. Mais um dia dádiva, divino este início de tudo. Hoje, uma Outra eu, não a mesma que foi dormir ontem: experiências agregam, amanhecemos sempre diferentes. Mais um dia e nenhum outro dia em nossas vidas será igual a este. Quanta novidade guardada numa noite finda.
Hoje eu me perdoo e me permito: evitar o que machuca ou promover o que enriquece e que não foi feito (ainda).

Desejo boas notícias.
Marla de Queiroz
(...)
 


Eu só queria alguém pra cuidar dos meus medos. Alguém pra me abraçar nos dias ruins e pra rir comigo nos dias bons. Alguém capaz de colocar o mundo de cabeça pra baixo para abraçar o meu.  Alguém que lute por mim com unhas e dentes e que quando  eu queira ir embora, esse alguém segure a minha mão forte e diga: "Eu sou seu. E estou aqui pra segurar sua mão. "
Quero alguém pra me amar incondicionalmente e pra dormir de conchinha sem medo.

Por que é tão difícil sairmos de nossas zonas de conforto_ que podem nem ser tão confortáveis assim_ mesmo sob o sol quente rachando a pele, mesmo sabendo que logo ali à frente há promessa de mais alegria e menos frio?
Porque ser livre é mérito dos que têm coragem. Uma conquista dos que rompem o vínculo com a culpa e experimentam suas próprias leis_ já que a liberdade é almejada mas também complicada. Difícil como ter o oceano à frente e não saber o que fazer com ele. Acreditar no prazer que existe em estar submerso e ter medo de água fria. Enxergar a beleza, admirar a coragem dos que se arriscam e preferir ficar na areia observando com brandura e pouca bravura.
Esquecemos que somos livres. Preferimos culpar a água gelada, o vento que chega sem avisar, a sombra que surge do nada. Esquecemos que dentro de nós tem sempre um sol que aquece, uma água morninha convidando pra um mergulho, uma noite iluminada.
Optamos em ser apenas observadores, sentados em cangas esperando pela vida que acontece de verdade fora de nós. Enquanto isso, sempre haverão meninos de pele morena rindo ao sabor do mar, nos mostrando que perdemos tempo com previsões, limites, juízos e regras inúteis enquanto a vida escapava gentilmente como areia descendo pelos dedos.
Porém, liberdade não é para amadores, para quem não se conhece. Ao contrário, é coisa de gente séria, que se arrisca com responsabilidade e tem coragem de avançar e também recuar, de quem percebe a agitação do mar e não vacila com a própria vida. Pois ser livre não tem a ver com se atirar descontroladamente e sim se conhecer, aprofundar no mistério que habita e entender de si mesmo sem julgar, não apenas surfando na superfície da vida mas sim procurando respostas, encontros, disposições...

Do texto "Liberdade e férias", blog A Soma de todos os Afetos, por Fabíola Simões. Link: http://asomadetodosafetos.blogspot.com.br/
Cuidar bem de quem se ama não é apenas causar algo que beneficie o Outro ou um comportamento totalmente altruísta. Cuidar bem de quem se ama é a maneira mais bonita de desenvolver o nosso potencial amoroso e aprimorar nossos valores. Isto nos faz nobres e amoráveis. Quando estamos Conscientes de que o amor é nosso e o Outro é nosso foco, vemos na relação não uma obrigação de nutri-la, mas a vontade de. Sentimos a delicada sensação de que estamos tendo a oportunidade de enriquecer a nós mesmos extraindo de um sentimento o que há de mais genuíno nele. Isto nos humaniza, nos alegra, nos sensibiliza, nos conecta com uma dimensão maior do amor. Cuidar bem de quem se ama significa cuidar bem do que vem à tona de nós dentro de um relacionamento. É um investimento na nossa maneira de comunicação com a vida. Denota maturidade e sabedoria. Estar inteiro no amor é dispensar quaisquer joguetes que possam encardir a pureza que nos foi ofertada. Tudo nos é oferecido limpo e sagrado, cabe a nós aceitar com profunda gratidão ou macular com limitações que sinalizam que ainda não estamos prontos ou dispostos a transcender. Cuidar bem de quem se ama numa Era de medos e traumas e complicações desnecessárias é um dos atos mais revolucionários que eu conheço.
Marla de Queiroz
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca
Principalmente nos vazios de amor. 

#Partiu jogar na mega sena. 
Azar no amor. Sorte no jogo. 
rs  
Eu me perdoo porque em vários momentos, fui injusta com vocês, comigo. Deixei que as minhas expectativas se tornassem exigências e julguei pessoas inteiras por causa de uma única atitude. Eu me perdoo porque na tentativa diária de acertar, cometi inúmeros erros por medo de errar. Fui áspera quando estava assustada e precisava pedir abraço, ajuda. Fui dócil por interesse, por necessidade de ser aceita para minha falsa completude. Eu me perdoo porque, não estando inteira para mim, doei fragmentos do que eu tinha, fui cínica com a minha poesia, falei de amor quando o que eu sentia era carência. Eu me perdoo por tantas vezes, não perdoar tua displicência, invadir tua individualidade, reclamar tua ausência. Eu me perdoo pela falta de compreensão e paciência com as minhas limitações e com as suas. Eu me perdoo por tirar a roupa quando você queria me sentir emocionalmente mais explícita, não apenas me ver nua. Eu me perdoo por ter me anestesiado tanto tempo e desrespeitado minha angústia, negligenciado qualquer aprendizado que trouxesse sofrimento. Eu me perdoo por rasurar com minhas autocríticas, os meus melhores momentos. Eu me perdoo porque sou imperfeita e humana, mas já pretendi a perfeição do Outro, mesmo não havendo importância ou a possibilidade disto. Por querer receber aquilo que nem eu tinha para dar. Por insultar querendo que a mudança fosse alheia porque julgava ser do Outro o medo de transcender, de transmutar.
Eu me perdoo por ter vivido por tantos anos sem me perdoar.
Marla de Queiroz

Passei muito tempo tentando “suprir meus vazios” até descobrir que o que apertava o meu peito era a quantidade de entulhos emocionais que eu carregava. Eu precisava era do vazio para me sentir internamente arejada e com bastante espaço para crescer. A angústia não é um vazio, é uma corrente que se arrasta. O vazio é uma possibilidade, uma lacuna a ser preenchida, um espaço para uma decoração nova. Precisamos de páginas em branco para que nasçam poemas, de recipientes disponíveis, de um coração espaçoso, de uma alma livre, de uma mente aberta. O vazio só existe para os desapegados, para os que suportam e celebram o silêncio que possibilita-nos ouvir os sussurros da intuição e não os gritos infantis dos desejos imediatos. O vazio é uma esperança maciça. Ele não é apenas a falta que nos move e motiva, mas a lembrança mais genuína de que somos seres inacabados e que precisamos nos construir diariamente, incansável e eternamente. O vazio não é um abandono de si, é um reconhecimento do eu, um convite para o Outro, algo que deve ser preenchido temporariamente, dentro do mesmo movimento humano de acordar sempre um desconhecido. O vazio é uma curiosidade que ainda não foi desvendada. É ter braços livres para o abraço que acabará daqui a pouco, mas que ecoará constantemente na lembrança mais bonita. Porque no toque intenso, o afeto estava leve.

Marla de Queiroz


Quando perco o sono fico costurando flores por dentro dos sonhos , no viés do vestido da noite.Às vezes me dá uma vontade crua de ser triste só pra encharcar com lágrimas de sal a poesia e espantar as abelhas.Mas não aprendi amargura nem quando me amamentaram com fel.Eu só preciso pingar duas gotas de lua nos meus olhos pra dilatar a pupila e resgatar minha inocência e aceitar com ternura minha vida de insônias, ardências e alguns (des)encontros.
Estou com sede de mudanças, mas não quero arrastar os móveis, nem desentortar os quadros.Quero desabitar meus hábitos; entrar na poeira estagnada das coisas e assoprá-la no vento como quando se liberta um passarinho depois de curar sua asa machucada.
Pra estar feliz eu só preciso deixar que meus dedos dancem a coreografia do poema novo,vestir as palavras de cetim pra seduzir o moço e aumentar as exclamações do seu desejo.
Amanhecer é da competência dos dias.
O poeta tece a paisagem.

(Marla de Queiroz)
Terça-feira de Lua Cheia de 1999.
"FULANO",
Tenho escrito a você mentalmente todos os dias. Hoje me ocorreu enviar algo.
É que gostaria que soubesse que só tenho lembranças boas do nosso início de história, mas precisei me afastar para não “forçar a barra”. Sei que dentro das suas limitações você abraçou um lado meu que achava bonito, mas rejeitou um outro também repleto de belezas e sombras e, de qualquer maneira, eu nunca soube lidar com a rejeição: fico com cara de choro e peço colo fora de hora (inadequadamente), o que pode ser chatíssimo para quem, no momento, está sem condições de se doar e precisa cuidar somente de si. Não há julgamento no que te escrevo, mas uma forma de olhar como quem se olha no espelho...
É que tenho sempre tanta vontade e pressa de que tudo dê certo que, às vezes, ultrapasso a faixa que indica que já andei os meus 50% do caminho e fico querendo andar os 50% do Outro para que haja logo um ENCONTRO. E o nome disso tudo é MEDO. 
O meu medo foi tão grande quanto ao seu, mas alguém tinha que investir de alguma forma e eu me aventurei. Quis tanto você por perto que já nem me importava mais para quê. Me predispus a esperar “seu momento”mas me dei conta de que eu estava batalhando inutilmente e me agarrando com uma força quase insultuosa a um corpo completamente destituído do que eu realmente precisava. Adiei demais minhas entregas reais, bebi muito na Literatura e encontrei um refúgio, uma bolha de proteção de tudo que pudesse me doer depois. E os meus referenciais de relacionamentos nunca foram positivos, por isso tantas fugas criando personagens, inventando histórias e abandonando capítulos inteiros pela metade.
De repente me veio uma vontade louca de investir verdadeiramente em alguém e não sei exatamente o porquê, embora você me dê inúmeros motivos para isto, te escolhi como meu foco. Mas você não estava na mesma disposição para o abraço e me deparei com mais uma fuga minha: atrair alguém não disponível afetivamente para que eu desistisse do meu entusiasmo inicial e, mais uma vez, abandonasse o primeiro capítulo pela metade.
Não sei ainda aonde quero chegar, só acho justo te contar essas coisas.
Sinto saudades das nossas trocas e da nossa relação literal/mente, mas se eu continuasse com isso ficaria cada vez mais confuso e difícil para mim reorganizar você dentro dos meus sentimentos. Decidi o que quero e preciso vibrar nesta energia para atrair a história INTEIRA e INTENSA com POESIA e PRESENÇA. Do jeito em que estávamos só conseguiria me nutrir de esperança infantil dessas que nos vão cegando e deixam tolos e desinteressantes para o Outro.
Enfim, sigo daqui sonhando em publicar meus livros, meus textos. Sigo com minhas angústias, alegrias, saudades. Concentrada nas coisas que quero de imediato e desejando com todos os detalhes. Ainda não tem um rosto, quase teve o seu, mas desejar um rosto é interferir no destino alheio e isso eu não faço.
Ficarei bem, fique bem. Teremos sorte. Ainda nos encontraremos “por acaso”(!) para falar de amor, amizade e sobre a ANATOMIA DA POESIA...
Teus poemas estão guardados num escaninho precioso da minha memória. Teu cheiro, tua voz e um jeito muito seu de não “se dobrar”também!
É com um nozinho na garganta , mas com a voz mansa e o coração sossegado que eu me despeço: Até quem sabe!

Marla de Queiroz

E no meio da noite, acordei com uma saudade da sua mão segurando a minha. Saudade da nossa conchinha. 
Será que você tem saudade desses momentos?  

E eu, que fiz silêncio até aqui, agora ardo. É porque tem coisas que, quando guardadas, nos guardam também. Guardam nossa vibração pela vida, nossa intensidade plena, nossas alegrias exaustivas. E quando deixo o silêncio ser maior, tantas vezes é por falta de reação, uma apatia e cansaço diante do mesmo diálogo que nos levam as mesmas respostas. E essa ardência é sintoma de peito calado, é consequência de amor sufocado, é uma explosão que comunica a gota d'água e transborda as fés vencidas. E eu, que colecionei todas as feridas e as tapei como quem abafa o som de um megafone com a mão, sinto agora o eco no coração, vazio de sim, tão cheio de não.

Lilian vereza 
E cansa se frustrar todos os dias pelo mesmo motivo. 

Perdoe-me Senhor , pois todos os dias peço que seja feita a tua vontade, mas muitas vezes a contesto quando essa não coincide com a minha! Perdoe-me também , por não compreender e aceitar tudo que tem me doído nos últimos tempos. Me perdoei por questionar a sua presença...
Fortalece Senhor a minha fé! 

"(...) 
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós"

Paulo Leminski
Tenho sentido uma tristeza tão grande, as palavras se inquietam aqui dentro. E tudo que antes era acomodação, tornou-se um grande vendaval. As palavras que me saiam tão bem, agora falta. Vejo a pessoas pela rua transbordando felicidade  e questiono: Cadê a minha, onde perdi essa criatura? E sinto, essa tristeza cortante. Pede a Deus que me devolvesse você, mas hoje questiono, como Ele pode devolver o que nunca foi meu. E nunca será, sei lá... Eu estou cansada das suas promessas sem embasamento. Você fala, fala e fala, mas não vejo seus atos em busca da consolidação das palavras. Eu só queria aquela sensação de segurança. De cachecol envolvendo o pescoço, de mãos dadas na roda gigante. E de nossos momentos que ainda estão intactos em minha memória. 
Eu já nem sei se tudo que lembro é real, ou são memorias projetadas por uma menina boba e sonhadora. 
Talvez, eu nunca me sinta feliz realmente. Mas, desejo isso com toda força. 
 
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