lembra quando a gente costumava se amar?  era quase um sonho. pintado em amarelo e vermelho, a gente sorria e ouvia o mar. a gente era o mar. e aí que eu me lancei, de barco, vela aberta, jangadeira portuguesa a te navegar. inventamos palavras - todo um dicionário, aliás - com os nossos quinhões de felicidade (e arrogância). éramos arrogantes porque podíamos: daqui, de tarde, conseguia ver teu braço fino passeando pelo meu corpo. havia tanta languidão nas tuas pernas que era quase como se fossem minhas (eram minhas). lembra de quando eu te contei o mito grego da - não lembro mais o nome, jamais lembrarei; só ficou o lençol, tingido de promessas. eu tinha tantos dedos. outro dia fiquei pensando como seria (foi hoje) voltar a te ter - e lembrei da inglaterra, distante, fria e sólida, a reger meu coração. sou toda vísceras, você bem sabe. de olhos negros e mãos vazias, sou toda vísceras. mas a inglaterra e você me fazem suar: restaram os cartões-postais e os bilhetes de trem, que continuam guardados na mala. aliás: te contei que fui buscar aquela em são paulo? nesse momento, estou em um avião, voltando de belém para a nossa tão estimada cidade, e sorrio chorando, lembrando que um dia eu fui sua e você foi meu e tudo fez sentido naquela tarde em que éramos o mar. minha poesia anda distante sem você - povoada de tigres, relógios, labirintos e cercada de faunos & madeira - descobri esses dias que aquela salmoura das palavras vinha mesmo era das tuas vírgulas. mas tudo bem: a gente inventa outros oceanos. 

um beijo

Letícia Simões 

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