Terça-feira de Lua Cheia de 1999.
"FULANO",
Tenho escrito a você mentalmente todos os dias. Hoje me ocorreu enviar algo.
É que gostaria que soubesse que só tenho lembranças boas do nosso início de história, mas precisei me afastar para não “forçar a barra”. Sei que dentro das suas limitações você abraçou um lado meu que achava bonito, mas rejeitou um outro também repleto de belezas e sombras e, de qualquer maneira, eu nunca soube lidar com a rejeição: fico com cara de choro e peço colo fora de hora (inadequadamente), o que pode ser chatíssimo para quem, no momento, está sem condições de se doar e precisa cuidar somente de si. Não há julgamento no que te escrevo, mas uma forma de olhar como quem se olha no espelho...
É que tenho sempre tanta vontade e pressa de que tudo dê certo que, às vezes, ultrapasso a faixa que indica que já andei os meus 50% do caminho e fico querendo andar os 50% do outro para que haja logo um ENCONTRO. E o nome disso tudo é MEDO. 
O meu medo foi tão grande quanto ao seu, mas alguém tinha que investir de alguma forma e eu me aventurei. Quis tanto você por perto que já nem me importava mais para quê. Me predispus a esperar “seu momento”mas me dei conta de que eu estava batalhando inutilmente e me agarrando com uma força quase insultuosa a um corpo completamente destituído do que eu realmente precisava. Adiei demais minhas entregas reais, bebi muito na Literatura e encontrei um refúgio, uma bolha de proteção de tudo que pudesse me doer depois. E os meus referenciais de relacionamentos nunca foram positivos, por isso tantas fugas criando personagens, inventando histórias e abandonando capítulos inteiros pela metade.
De repente me veio uma vontade louca de investir verdadeiramente em alguém e não sei exatamente o porquê, embora você me dê inúmeros motivos para isto, te escolhi como meu foco. Mas você não estava na mesma disposição para o abraço e me deparei com mais uma fuga minha: atrair alguém não disponível afetivamente para que eu desistisse do meu entusiasmo inicial e, mais uma vez, abandonasse o primeiro capítulo pela metade.
Não sei ainda aonde quero chegar, só acho justo te contar essas coisas.
Sinto saudades das nossas trocas e da nossa relação literal/mente, mas se eu continuasse com isso ficaria cada vez mais confuso e difícil para mim reorganizar você dentro dos meus sentimentos. Decidi o que quero e preciso vibrar nesta energia para atrair a história INTEIRA e INTENSA com POESIA e PRESENÇA. Do jeito em que estávamos só conseguiria me nutrir de esperança infantil dessas que nos vão cegando e deixam tolos e desinteressantes para o Outro.
Enfim, sigo daqui sonhando em publicar meus livros, meus textos. Sigo com minhas angústias, alegrias, saudades. Concentrada nas coisas que quero de imediato e desejando com todos os detalhes. Ainda não tem um rosto, quase teve o seu, mas desejar um rosto é interferir no destino alheio e isso eu não faço.
Ficarei bem, fique bem. Teremos sorte. Ainda nos encontraremos “por acaso”(!) para falar de amor, amizade e sobre a ANATOMIA DA POESIA...
Teus poemas estão guardados num escaninho precioso da minha memória. Teu cheiro, tua voz e um jeito muito seu de não “se dobrar”também!
É com um nozinho na garganta , mas com a voz mansa e o coração sossegado que eu me despeço: Até quem sabe!

Marla de Queiroz


0 permitiram-se:

Postar um comentário

Entrem e fiquem avontade!
Coloquem aqui os seus devaneios e confissões...
BeijinhO,
Tami

 
©Suzanne Woolcott sw3740 Tema diseñado por: compartidisimo