Foi acordada cedo pela saudade. Não sabia se chovia ou fazia sol; permaneceu no escuro e no silêncio por alguns minutos. À medida que a luz entrava pelas frestas, ficou ali, contemplando as coisas sem contemplá-las. Mas nada fazia companhia. Foi então, que em cima da cômoda, viu toda aquela felicidade ausente presa num retrato. Pôs uma música, andou nua pela casa e não se olhou no espelho. Faltava-lhe disposição até para seus hábitos. Sentia-se perdida dentro do seu endereço tão antigo. Quis arrumar alguma coisa que trouxesse ordem pras suas gavetas internas. Pensou no guarda-roupa. Mas tudo tinha cheiro de "antigamente eu era feliz". Foi assaltada por comoção e medo e fechou rapidamente aquela porta do passado. Estava condenada à nostalgia. Abraçou a felicidade do retrato e chorou. Um choro meio tímido e constrangido: tinha se prometido o desapego na última noite de Ano-Novo. Mas tudo corria sempre para o mesmo lugar. Tinha aquela sensação de que sua vida era um eterno ensaio...Ensaiando para ser feliz... Ensaiando para ser madura... Ensaiando para amar... Ensaiando para ser equilibrada. E quando tentava estrear, o resultado era um fracasso de público e crítica. 
Arrumou a casa, desfez do travesseiro o formato da cabeça dele, antes, cheirou forte e profundamente aquela fronha e lembrou do corpo mole acordando ao seu lado, aquela cara preguiçosa esboçando um sorriso, ensaiando um "Bom dia!!! Você vem sempre aqui?". Tinha vontade dele. Tinha vontade do riso, da alegria dele. Aumentou a música e foi lavar a louça de dias atrás: duas taças de vinho pela metade, dois pratos: tudo em par; tudo lembrava um casal que havia se namorado e que depois do amor buscaram famintos alimento e energia pra continuar até dali a pouco. Amanheceria. Aquele romance tinha hora marcada pra acabar.( E o tempo nessas horas é cruel: ele corre). 
Arrumada a casa, persistia a desordem: era dentro dela que o ar precisava circular. Suspirou fundo e acendeu um cigarro. O maço verde lembrava a cor dos olhos do seu amor... Tudo tão abarrotado da ausência dele! Pensou em comer alguma coisa, não porque tinha fome, mas pra ocupar mais alguns minutos daquele dia em que o relógio marcava lento e com má vontade as horas. Comeu sem vontade mastigando lentamente e aos suspiros aquela falta de sabor das coisas. Em seguida, deitou-se, abandonada, na dor da sua solidão, olhando pro teto como quem procura uma resposta. Achou que ia chover, esperou para chover junto e a chuva não veio. Ligou pra uma amiga no meio da tarde desassossegada e pronunciou as primeiras palavras do dia: "Não quero mais ficar nessa casa, preciso conversar, tudo aqui é saudade..." e saiu. Nada adiantou, não era dessa companhia que sentia falta. Quis voltar rapidamente, lembrou que o telefone poderia trazer uma boa notícia. E resignou-se a esperar,ali, naquele ninho de ausência em que se transformara a sua casa, o chamado que traria paz ao seu coração. 
E ficou horas recordando a alegria interrompida. Com vermelhos tremendo na língua com violência. Aquilo incomodava fisicamente. E a noite silenciosa deixava nítida a voz da sua agonia. Então foi chamando o sono; tentando se entregar à aventura dos sonhos. Foi adormecendo mergulhada na sua tristeza, com a vida doendo por todo o corpo e escutando uma música que dizia: “Meu amor, cadê você?! Eu acordei, não tem ninguém ao lado...".

E o seu dia começou sem terminar...
Marla de Queiroz

0 permitiram-se:

Postar um comentário

Entrem e fiquem avontade!
Coloquem aqui os seus devaneios e confissões...
BeijinhO,
Tami

 
©Suzanne Woolcott sw3740 Tema diseñado por: compartidisimo