Tinha vontade de vomitar, e não vomitava. Vontade de gritar e não gritava. Amável, gentil, tolerante e sem sexo, os patins dominando a lisa passarela, em gestos graciosos como os de um trapezista após o salto, mas nunca a ponto de qualquer queda não ser prevista ou amparada por uma sólida rede de amenidades, e a grande merda, e o indisfarçável medo emboscado nas paredes do apartamento, e os inúteis cuidados, e a cama vazia no fundo do quarto, os dedos ansiosos, o ruído dos carros filtrando pelas parede, a campainha em silêncio, algum livro e depois o poço viscos. Algum cigarro, nenhum ombro, alguma insônia, nenhum toque, um ultimo acorde de violão, e depois o sono.
_ Caio Fernado Abreu

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