Quando eu entrei no barco furado, sabia que o excesso de água seria o desafio a superar até conseguir chegar na terra firme da sua entrega. Sabia que o acesso a um sentimento guardado seria uma tormenta em fúria cheia de correntezas, mas sempre tive tantas certezas, que a calmaria que me esperava traria gosto de recompensa boa.Entrei sabendo que poderia me afogar, mas a vontade que beijava meus sonhos impulsionava minha remada diária, rumo a um peito adormecido que habitava terras quase virgens. Quando entrei no barco, entrei inteira, fechei os olhos num salto dentro de mim sem rede de proteção, só assim eu chegaria em você. Precisei rascunhar estratégias pacientemente, analisar a rota com cuidado, confiar na bússola da minha intuição e passar a limpo tantas vezes minha esperança acreditando tanto em algo, mas tanto, a ponto de não estremecer meu ânimo, nem nos momentos de tempestade em alto mar. Passei a conversar com o vento, ouvindo os conselhos da direção como se fosse um aviso da minha meteorologia interior. Comemorei cada sorriso nosso que se pôs no horizonte, amanheci junto aos primeiros raios de sol disfarçados de passos firmes que nutriam o coração, celebrei cada alimento que pescávamos no caminho, que davam sustendo a minha poesia. Acreditei tanto. Meu Deus, acreditei tanto que se eu remasse dia e noite não cansaria, pois cada abraço seu me declamava pro mar, como se fosse um samba lento, desses de se dançar com par. E em cada evolução eu ganhava novas cores, perdia os temores, ajeitava o peito pra caber mais ar e ter mais fôlego para ir mais adiante. Acreditei tanto ser possível que não me dei conta que remava sozinha, contra a maré solitária de uma madrugada fria. E a água que beijava meus pés já procurava espaço entre meus joelhos tristonhos. Toda fé, suor e crença se despediam lentamente de uma trajetória traçada, mas afogada pela covardia do destino. E em seguida sobrou eu, com os olhos cheios de sal e um peito abafado, com a terra à vista em um mar imenso e distraído querendo brincar de ser lição. Aprendi que só remando juntos e na mesma direção os sonhos ganham força. Aprendi que existe diferença em tentar chegar e querer chegar e que esse sentimento deve ser compatível e dividido por toda tripulação a bordo. Aprendi que meu caminho é fundo demais pra quem somente se disponibiliza a navegar às margens de si e que isso faz muita diferença dentro da crença de se conquistar um território abandonado. Aprendi, que só do seu lado remar faz sentido, e que a saudade dessa aventura faz tanto frio já na minha alma de poeta. Aprendi que se aprende todo dia, se chora, se ri, se disfarça a dor, mas que se não existir um porto seguro, o naufrágio é inevitável E que tantas vezes é preciso deixar entrar água nos sonhos para se reaprender a nadar.
Lilian Vereza

0 permitiram-se:

Postar um comentário

Entrem e fiquem avontade!
Coloquem aqui os seus devaneios e confissões...
BeijinhO,
Tami

 
©Suzanne Woolcott sw3740 Tema diseñado por: compartidisimo