É fato que fomos. Mas seria muito esquisito me despedir de você cumprindo todos os pré-requisitos dos dramas clássicos. Prefiro acreditar que você foi uma chuva precipitada que eu só tive coragem de experimentar por detrás da vidraça. Assim, como já fizemos tantas vezes com outras pessoas. Também queria te dizer que só vou me entregar à outra narrativa quando ela se tornar uma história coesa, coerente, bem elaborada. Renuncio desde agora às relações em que todos os passos levam apenas a um contato irremediavelmente externo com a palavra. Eu gosto é de misturar agudezas com tons graves: bem se vê na escala cromática dos meus sentimentos. Meus amarelos tão vivos, primitivos. Meus vermelhos tão trêmulos. Minhas cores acesas, em brasa. 
Mas, no meio disso tudo, quero te contar que eu preciso me olhar bem por dentro, de tempos em tempos, por um bocado de dias pra que eu continue merecendo minha poesia. É diferente da solidão que se sente quando se está acompanhado: neste caso, perdemos de vista o outro. Eu tenho estado muito feliz, antes que você pergunte. 


Marla de Queiroz 

QUANDO AS PALAVRAS SE ABRAÇAM- pg. 29

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