Eu já tive vontade de colocar o pé na estrada. Assim, meio sem rumo. Tirar as coisas do guarda-roupa, colocar de qualquer jeito dentro da mala e ir. Sem destino, sem hora para voltar. Mas aí descobri que sou adulta e que os adultos têm uma vida diferente. Existe uma pilha de contas em cima da mesa, que só cresce. Para poder pagar as contas é preciso trabalhar. 
Lembrei de quando eu era criança: as coisas eram mais simples. Minha maior tristeza foi cortar o cabelo da Barbie e descobrir que ele jamais iria crescer novamente. Meu maior problema era ter que subir em um banquinho para conseguir me enxergar no espelho para escovar os dentes.
Como a gente muda, meu Deus. Como os sonhos mudam. Alguns foram embora, me deixaram. Outros cresceram juntinho comigo. Alguns sonhos, impacientes, fizeram as malas e se foram sem ao menos deixar uma foto como lembrança. E eu fico aqui, um pouco saudosa, tentando lembrar o que um dia eu quis.
Dá uma certa melancolia relembrar algumas fases da vida. É que o sonho muda com o tempo, com a idade, com as fases. Realizei tantos, tantos. Deixei outros pra lá. Eu já quis ser bailarina e psicóloga. Eu já quis morar fora. Eu já quis tantas coisas. Fiz tantas outras. Dizem que a gente não deve se arrepender do que fez, só do que não fez. Mas eu não conheço nenhuma pessoa que nunca tenha se arrependido de ter feito ou dito algo. Eu já me arrependi, sim. E muito. E tive a coragem de tentar acertar as coisas. Nem sempre sei o que fazer, mas sei reconhecer um erro. Aprendi a pedir desculpas e acho isso bonito. É importante a gente conseguir olhar para dentro e fazer uma análise crua de quem somos. 
Hoje, se eu pudesse, colocaria o pé na estrada. Arrumaria a mala com calma e cuidado, escolheria um destino lindo e partiria com meu marido e minha cadelinha. E depois, é claro, voltaria para o meu lugar.
 
 Clarissa Corrêa

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