O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua cheia, depois do cinema entediante, e das andadas pelo shopping; acaba em cafés mornos, diferente da rodoviária e daquele mundo virtual onde tudo começou. De repente, ao meio do cigarro que ela joga pra trás em uma avenida ou a cara de raiva que a outra faz quando não suporta ser insultada, respirando tão fundo, que é como se fosse um da
queles suspiros que solta quando está gozando, ou feliz por saber que há quatro pés na sua cama,; no descanso de uma noite voltada por abraços e olhos fechados ou num bater de uma ligação. Ou por algumas palavras importantes e dilatadoras que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos numa rua movimentada, elas se soltam como portas se abrem para a ventania entrar; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado. Na insônia dos olhos cansados e cansados, de não dormir e chorar. E acaba o amor nos pontos de ônibus, onde os outros são os outros e não ultrapassam de meros desconhecidos, e observam todo o movimento, mesmo não sabendo do que se trata, ou como se tratam. Entre o frio, e as luzes dos postes refletidas sobre as calçadas, tão sujas que se confundem com as vestes de um morador de rua. E no olhar vazio da mocinha, algumas lágrimas se fecham, como se bastasse apenas um toque para que o espelho cravado sobre a sua face, desmoronasse, partisse e ela não pudesse mais ver como o amor pode começar. Ás vezes acaba o amor nas religiões, em toda aquela fé que você deposita no interior da sua alma, e guarda para que em qualquer momento de fraqueza possa usar e acreditar que tudo dará certo, e quando não dá, já sabe... Mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; nos bocejos de cansaço o amor pode acabar; no embaraçar dos cabelos soltos, ou no espetinho de churrasco, que juram não comer; nos perfumes, nas mentiras, e nos sorrisos, ou até nos restos de unhas; quando os corpos se misturam e perdem a sintonia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; nos ciúmes endoidados, e nas tremidas do coração; em alguns sábados, quando a tarde fica cinza, e a TV muda. Nos planos tão reais, e na filha que sonharam durante tanto tempo, e não foi gerada, está guardada como semente. Do ódio criado através das sílabas que saem de certas bocas como se não doesse, como se não causasse, como se. Em casas vazias, e no pensamento lá em você como afirma Djavan. Onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba nas juras, e nos beijos rotineiros, que se não fossem tão dados, seriam mais profundos. Em salas de amigos, quartos e presença; nas manhãs preguiçosas e no batente de todo dia, do seu trabalho, da minha luta. No barco, no trem, no ônibus, idas e idas para becos sem saída e experiência pra contar, o amor se eriça e acaba. No inferno o amor não começa, mais termina no azul e branco da camisa dela; nos sanduíches, e nas lembranças de lugares que um dia pisou antes de me encontrar. Em Amsterdã, onde ela sonha e eu desguio pra Paris. O amor pode virar pó; em Porto Alegre, por onde queremos entrelaçar nossos passos, em busca do irremediável, nos bares, e passarelas, e caminhos de Salvador, na Argentina onde achamos refúgio, e minha mãe não me deixa ir, ou no Maranhão, lugar quente e bonito. Nas cartas que lhe enviei, e usei formas práticas, não folhas antigas e rabiscos de caneta, o amor acaba. Uma delas chegou antes, ou depois, é sempre assim que o amor acaba. Na descontrolada vontade de foder, jogar pro lado, ficar em cima, sentir a carne, os órgãos expostos, os músculos, o líquido. – O amor? Ah, ele acaba. Ás vezes acaba na mesma música que começou, com as mesmas flores, e as mesmas mesas, pelo mesmo número, na mesma vibe, presas a um mesmo lugar, diante do mesmo sol, e das mesmas nuvens, e do mesmo telhado; e muitas vezes acaba na astrologia, quando afirmam que Leão é assim, e Sagitário assado. E que se Marte não ultrapassasse meados do vigésimo eu seria Capricórnio. E acaba nas encruzilhadas que eu assumo ter medo, e nos livros presos no guarda-roupa que ainda não li e ela cobra. Na minha boca dolorida, e na língua dela roçando os meus tímpanos. E nas nossas idas ao médico, e nos nossos vômitos e dores de cabeça, no nosso afeto e na causa de toda inveja visível. Tudo isso é imprestável para o amor. E acaba ao longo dos meses e das viagens, acaba na minha vontade de ter uma vitrola, e na minha repulsa por sorvete, na compulsão por roupas e nos olhos puxados que ela tem. E acaba depois que se viu o que não queria, e pensou o que não existia, e não se entenderam, só afastaram-se. Mais ainda se ligam, e se falam, e se preocupam, uma pra outra, ela pra mim. E gritamos, e desafiamos, fazemos aquelas brincadeirinhas, principalmente a do nariz, típica de casal apaixonado num banco de uma praça no século dezoito. Na minha janela, no muro dela, nos nossos gatos, na minha cadela, tartaruga e ratinhos, no nosso espelho e no cair da água, quando tomamos banho. Ás vezes não acaba ele simplesmente é guardado como notas fiscais de fast-food na carteira, que continua ali, mesmo não servindo. Mas que um dia fará você lembrar-se daquela tarde, da senhora de saia amarela que estava na outra mesa, empatando o caminho do corredor. Sorte, ela sabe que uso essa palavra. E acaba nos meus incensos, e nas revistas dela. Ás vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com conversa, dialogo maduro e sério, amizade e flash-back. Acaba na vontade de passar o tempo, e um dia se bater em meio a uma cafeteria localizada perto do meu trabalho, que é caminho da biblioteca, onde ela depois de anos costuma frequentar. E eu de longe a observo como se conhecesse de algum lugar, e coloco minha bolsa sobre a mesa, abrindo o jornal da manhã que não tive tempo de ler, e me pergunto, acaba o amor? Na verdade, o amor não acaba. Ele é abstrato, único! E as confusões insatisfatórias chegam, e vocês brigam, por qualquer motivo, em qualquer lugar, durante qualquer estação ou hora, ocasião, no momento em que está trocando de roupa, e ele ou ela esteja num engarrafamento, o amor finge acabar. Mas quer saber, quem ama complica e complica, procurando meios, para tirar de dentro o que não sai. E mesmo que procure nos dicionários, livros, contos, terreiros e massagens, não adianta. Quando você encontra o amor, ele permanece pelo resto de sua vida.

Fernanda Oliveira :  "O amor acaba", de Paulo Mendes Campos.

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